11 de set de 2010

Entrevista - Eduardo Marinho

Hoje, estaremos trazendo uma novidade para vocês. Uma brilhante entrevista que a Vanguarda fez juntamente com mais dois membros da familia, Mente Consciente e Mundo do Rap com um dos grandes artistas marginais que temos no país. Desde já, foi uma honra para nós o convite feito pelo "Mente Consciente" para participação dessa entrevista. Vocês agora verão uma das melhores entrevistas cedida pela Vanguarda, ratificando mais um dos nossos representantes. Nós precisamos de gente de fibra, de caráter, determinação, sabedoria (...), nós precisamos cada vez mais de "Eduardos Marinho".






ENTREVISTA

Conte um pouco da sua historia de vida?

Eduardo: Nasci na parte garantida da sociedade. Fui nela, usufruindo sem perceber, até os 15, 16 anos. Fui percebendo aos poucos a desigualdade e a injustiça. Comecei a me sentir constrangido, como um atleta que recebe o privilégio de começar a prova próximo ao final - que honra pode haver nisso?
Fui experimentando e percebendo quantas distâncias, além das aparentes, me separavam da maioria e da sua realidade. O convívio foi me mostrando minhas próprias fraquezas, as fraquezas dos privilegiados, que dependem de serviçais pra quase tudo e os tratam com uma arrogância grosseira, ou mesmo uma superioridade benevolente. Então fui experimentar como é não ter nada.
Tinha sido bancário (BB), militar (EsPCEx), vendedor, mergulhador e estudante de direito. E estava com 19 anos. Meus pais não concordaram, mas eu estava decidido a experimentar. A vida tinha perdido o sentido (não admitia esquecer o mundo e pensar só em mim e na minha carreira, era pouco pra ser a razão da vida, eu precisava de objetivos que me dessem satisfação ao espírito, que acabassem com minha enorme angústia – difícil explicar de forma resumida) e eu precisava procurar algum. Não pedia nada, além do respeito à minha decisão. Impotentes em impedir, ameaçaram com o banimento definitivo se eu não seguisse o caminho convencional. Mas eu precisava não ter nada, precisava construir o meu respeito próprio, diferente da sensação de superioridade que eu via à minha volta, artificial e falsa. Então as relações foram cortadas e minha experiência se tornou minha situação. O preço de voltar atrás cobrava minha alma, por isso eu não tinha caminho de volta.
A partir daí, toda a bagagem educacional e informacional que eu tinha passou a ser usada na análise das vivências que passei a ter, sem posição de classe, materialmente abaixo de qualquer classe. Tudo o que eu tinha de material, carregava nas costas.
Perdi os documentos e a proteção social. Andava na estrada, a pé e de carona, dormindo nos acostamentos, postos, construções abandonadas, debaixo de marquises. O mundo passou a me tratar como mendigo, hippie, ralé. Eu não me importava, ao contrário, percebia que quanto maior a minha “inferioridade”, mais sinceridade o mundo tinha comigo e mais próximo eu ficava da realidade. Eu não queria privilégios, já os tinha tido e sabia que não eram grandes coisas, diante do significado que eu buscava na vida. O sentimento de superioridade, a meu ver, bloqueava a inteligência, tornava as pessoas burras, em certos aspectos. Eu queria era aprender, mesmo sem saber muito bem o quê. E aprendia o tempo todo.
Vivia nas periferias, entre os sabotados da sociedade, encantado com a sabedoria que nunca imaginara. A coletividade, tendo negado o acesso ao saber, desenvolvia uma sabedoria tão profunda que superava em muito o saber acadêmico, que já me parecia meio desumano. Percebia que isso vinha do sentimento, do coração, e não da razão, do cérebro. Isso fez nascer e crescer um grande respeito pelos sabotados, os excluídos, os periféricos. Atrás daquela ignorância explícita, havia um saber vivencial, uma sabedoria forte e profunda, parte vinda de dentro, parte da vivência, muito mais forte que o saber acadêmico. O saber se envolve em medo, proteção e, com triste freqüência, é bloqueado pelo sentimento de superioridade. A sabedoria nasce da serenidade diante das dificuldades, da experimentação empírica, da humildade e da intuição.
Logo no começo, casei com uma figura pra quem balancei a mochila quase vazia no ar e avisei, “tudo o que eu quero de material na vida tem que caber nessa mochila. O que não couber, não me pertence, nem me interessa”, como um aviso, uma advertência. Calma, eu tinha só 19 anos, lembrem-se de vocês mesmos (os que tiverem pelo menos mais de 30. Os que forem mais jovens, saibam que criamos conceitos pétreos e, com o tempo, percebemos que a vida pode virar um vulcão e derreter as pedras). Três filhos eu tive com essa figura, vivendo de arte e artesanato. Vim para o sudeste, definitivamente, em 85, e morei no Rio, em Petrópolis, Montes Claros, Sete Lagoas, Prudente de Morais, Belo Horizonte, Visconde de Mauá, Rio de novo e Niterói, onde estou até hoje. Isso pra resumir a história.


2. (Mente Consciente) “A minha pobreza é a minha riqueza, e nessa sociedade competitiva a minha derrota é minha vitoria”. O que te levou a abandonar, a renunciar todo prestigio e privilégios que o capitalismo pode te proporcionar?


Eduardo: É um prestígio falso, baseado num sentimento de superioridade social fajuto, improvisado, com jeito de farsa, que não resiste a um olhar mais atento. Superioridade social é manter como prioridade máxima o atendimento a todas as necessidades básicas materiais e não materiais de toda a população, sem admitir de forma alguma, exceções. Isso é superioridade social, a responsabilidade solidária de todos para com todos e a prioridade das situações de fragilidade de qualquer espécie. Nossa sociedade não alcançou, ainda, esse patamar mínimo de dignidade. Estar em situação de privilégio, numa sociedade como a nossa, deveria ser motivo de constrangimento, de vergonha. A meu ver, aqueles que se encontram em patamares mais privilegiados da sociedade estão é em dívida moral, com a maioria que não tem acesso, e deveriam tomar seus privilégios como responsabilidade social, e não superioridade. Mas o ego, superestimulado pela cultura midiática do consumo, da posse e da ostentação, transforma essa responsabilidade em soberba. Claro que é apenas minha opinião, há quem pense diferente. E é claro que vai agir diferente e seguir sua consciência e seus valores. Eu analiso as ações, mas não julgo os atores. Cada um com suas decisões e suas conseqüências, que “o plantio é livre, mas a colheita é obrigatória”. Prefiro trabalhar na direção do explorado, do oprimido que é, em última análise, o sustentáculo inconsciente desta sociedade injusta, perversa, covarde e suicida.
Os privilégios que eu usufruía eram parte da minha realidade, eram comuns no meu nível social. No nível de angústia, de falta de sentido na minha vida, não me pareciam valores a serem considerados. Ao contrário, pareciam um peso a tirar de cima de mim, pra eu descobrir algum sentido na vida. Não ter nada, no princípio, foi uma embriaguez, um respirar, uma sensação de estar livre pra crescer, pra procurar sem saber nem direito o quê, de perguntar, ouvir, aprender, observar e absorver sem fim e perceber que, pra mim, é este o sentido da vida. Aprender, crescer, se desenvolver por dentro e por fora.
Quando vejo os privilegiados da sociedade, meu sentimento passa longe de admiração ou inveja; tampouco se aproxima do ódio ou do despeito; nem mesmo de indiferença ou desprezo. É difícil definir. Não gostaria de estar entre eles. Diante da minha humanidade, teria vergonha.



3. (Mente Consciente): Nesse mundo capitalista ao extremo, a dor vende mais que o amor, a paz e a harmonia?

Eduardo: Tudo vende, se for feito um “bom”trabalho. O amor é travestido de sexo, possessão, ciúme, traição, causador de conflitos. É reduzido à relação entre dois, transformado em produto pra consumo. A dor, a violência são transformadas em produtos. Neste sentido, considero a publicidade e a propaganda atividades moralmente criminosas, pela maneira que são usadas para condicionar comportamentos e implantar falsos valores sobre a maioria ignorantizada e brutalizada pela falta de uma educação que mereça o nome; infantilizada e alienada pela mídia comercial, que desinforma, deturpa, omite, mente e fabrica a mentalidade estúpida e dominante nesta sociedade torta. A paz a gente vê nessas passeatas sem pé nem cabeça, todo mundo de branco pedindo paz, sem nem perguntar o que acaba com a paz (além do mais, a paz de quem?). Isso sai na mídia, na versão idiotizada, até em novelas. A paz foi restrita a bolhas de segurança de alto nível. Uma paz pesada, egoísta, doente.
Pra maioria, ou se consegue uma paz interna ou não se tem paz. E mesmo a interna é relativa. Mas a mais imprescindível é a paz de espírito, a paz consigo mesmo. Quem trabalha neste sentido, transmite pra fora e arruma harmonia em qualquer lugar... tá bom, quase em qualquer lugar.
Amor, paz e harmonia são (ou devem ser, ou precisam ser) uma busca interna, em primeiro lugar. Uma busca profunda e sincera, de serenidade, de lucidez, de sabedoria, de conhecimento, de sentimentos, de desenvolvimento interno, pessoal. Sem isso, todo o trabalho externo é fraco, sem base de sustentação, quebradiço e sem consistência, quando não descamba pra hipocrisia descarada. A coletividade depende dos indivíduos, em sua infinita variedade – embora o esforço midiático para padronizar comportamentos e valores, numa vertente do controle de massas.



4. (Mente Consciente): Você acredita que a arte, a cultura seja um antídoto para a violência?

Eduardo: Pode ser. Mas também pode ser um estímulo.
A arte não é boa só por ser arte, como uma pessoa não é boa só por ser uma pessoa. A arte pode estimular a libertação ou o aprisionamento. Pode produzir luz ou trevas. Ou seja, é um instrumento sem vontade que depende das consciências, dos valores, das situações, enfim, de infinitas influências, maiores ou menores, em sua criação. Eu vejo o artista assim como uma antena, de maior ou menor capacidade e alcance. Capta no invisível, no abstrato, nas ondas de freqüências (aí, cada um que entenda, à sua maneira), e materializa, torna perceptível aos olhos, aos ouvidos, ao toque, ao mundo, algumas vezes com o poder de atingir a alma, o sentimento, a emoção, o invisível do ser. A intenção, os desejos, os valores, a personalidade do artista são determinantes na sua obra.
No estado de massacre em que se encontra a maioria, a arte é um potente recurso de resistência, quando direcionada a esse fim. Favorece o senso crítico e a auto-valorização, além de ter um tremendo potencial de conscientização, reflexão, sensibilização e mobilização. É a comunicação mais profunda, fala coma alma do ser humano, sem intermediários, sem o didatismo, a distância e a imposição de cima, características da nossa estrutura cultural “europóide”.
A publicidade, por sua essência artística, demonstra fartamente como se pode utilizar a arte de maneira nociva à coletividade, criando na alma das pessoas necessidades artificiais, desejos de consumo como se fossem objetivos de vida, amesquinhando a vida em si, produzindo conflitos e divisões na coletividade e angústias e frustrações nos indivíduos. Alguém pode dizer que publicidade não tem arte, mas apenas porque tendemos a acreditar na arte como algo puro e bom, o que é um tremendo equívoco, perigoso por baixar a guarda diante de qualquer arte espúria. A arte depende de quem a produz. Pode levar ao inferno, ao paraíso ou a lugar nenhum.



5. (Mente Consciente): No vídeo no youtube você comenta que já foi militar, qual seu ponto de vista em relação aos órgãos de segurança criados para combater o trafico de drogas nas favelas: BOPE, ROTA, COE, GATE...?

Eduardo: Pra começar, não existe combate ao tráfico de drogas nas favelas. O que existe são ações de fachada, criminosas e midiáticas, que nem arranham a estrutura do tráfico. Ataca-se o varejo do tráfico, onde é usada a camada mais pobre da população. Daí a ineficiência desse “combate” desumano, cujo objetivo real só pode ser a criminalização dos territórios de exclusão social, a intimidação das camadas abandonadas pelo Estado e a ocultação dos reais motivos de tanta injustiça.
Os soldados recebem instruções. Se as instruções forem não agredir, eles não agridem, sob risco de incorrer em crime militar. Soldados, cabos e sargentos são praças, oriundos das camadas mais pobres; os oficiais são das classes menos pobres (tampouco são ricos), são a “casta” superior dos militares, entram na corporação pela academia, que é a faculdade. Eles são responsáveis pelas instruções. E estas são dadas de acordo com a política de segurança vigente. Num Estado tomado pelos interesses privados, é natural que a vida de um pobre valha menos que a propriedade de um rico.
O que faz com esses rapazes de vinte e poucos anos saiam babando de ódio por qualquer um dentro ou próximo a uma favela? Como destroem sua humanidade, sua sensibilidade, seu corpo afetivo e emocional, transformando-os em máquinas de atacar? Qual o conceito de honra pode ter alguém que ataca quem não oferece resistência, ameaça com armas quem está desarmado, agride quem não se defende e desrespeita homens, mulheres, velhos e crianças, apenas por serem pobres e não poderem se defender sem por a própria vida em risco? É um crime contra a humanidade desses policiais, também, que perdem a sensibilidade e a solidariedade humana, elementos preciosos pra uma vida em harmonia, perdem o equilíbrio afetivo, a capacidade de sentir. O predomínio das empresas na sociedade desumniza seus próprios defensores, tirados de entre os mais pobres e atirados contra sua própria classe, estratégica e criminosamente convencidos de que não pertencem àquela classe.
Esse procedimento combina com a política de criminalização da pobreza e contenção dos movimentos sociais, intimidando, ameaçando, exterminando. Todas as forças policiais estão envolvidas nessa estratégia, ressalvando-se raras e sofridas exceções.


6. (Mente Consciente): Você concorda com a seguinte afirmação: A maior organização criminosa do pais é o próprio ESTADO?

Eduardo: A ação criminosa estatal ocorre porque o Estado está seqüestrado pelo poder econômico, cujos objetivos máximos são o lucro, a concentração de riquezas e poder e a exploração da pobreza. Daí o procedimento criminoso do Estado e suas instâncias jurídicas, legislativas, executivas e, por extensão, todo o organismo administrativo da coisa pública. Basta observar a insolência, o desrespeito e o desprezo com que são tratados os mais pobres, sob ameaça de prisão para os que reagirem e protestarem. O Estado não é, mas tem sido usado como uma organização criminosa, pois o poder econômico privado o obriga a agir como um “robinhude” ao contrário – tira dos pobres para dar aos ricos, tira dinheiro e direitos, dá dinheiro e privilégios. A coisa pública está completamente submersa na privada. Só podia dar merda, mesmo.
Temos exemplos de países onde a população se levantou e resgatou o Estado, mudando radicalmente a situação social, aqui mesmo, na América Latina. A Bolívia é o exemplo mais recente e completo, onde o conceito de autoridade, agora, é aquele que obedece ao povo. O desconcerto dos teóricos europeístas em entender o que acontece por lá tem origem na concepção de que o povo precisa ser mobilizado, via lideranças “esclarecidas”. Atribuem ao MAS o poder de mobilização, mas esse movimento foi criado e institucionalizado por causa da necessidade da população, que se mobilizou espontaneamente durante a guerra da água, de dialogar com as instituições.
Um artigo de Fernando Huanaconi, boliviano aimará, no blog www.sobrenuestramerica.blogspot.com, é muito esclarecedor a esse respeito (pra quem quiser ler, é um do primeiros artigos, no início do blog. O povo não precisa de lideranças, precisa de consciência. Os revolucionários acadêmicos preferem crer em lideranças, pois não têm a disposição, nem condições para o trabalho de conscientização, que é um trabalho que exige humildade e esforço de aprendizado, persistência e profundidade. Teriam que aprender a linguagem da maioria, esquecida e desprezada pela academia. Um sutil sentimento de superioridade os faz sentirem-se mais capazes e sábios que os não acadêmicos, confundindo falta de conhecimento com falta de personalidade e inteligência, sobrepondo o saber à sabedoria. É um secreto e não assumido desprezo pela maioria, ainda que benevolente. Descessem dos seus pedestais acadêmicos e, com humildade e espírito de aprendiz, fossem conviver o dia a dia dos despossuídos, dos mais pobres e excluídos, perceberiam quanta riqueza, quanto conhecimento, quanta sabedoria se desenvolve nessas áreas. E o quanto têm, ainda, e apesar do conhecimento acadêmico, a aprender.



7. (Mente Consciente): Como você analisa o sistema carcerário brasileiro?

Eduardo: É a vingança do sistema, a elite e seus servidores, contra os rebelados.
A mídia implanta como objetivo de vida o consumo excessivo, a ostentação de riquezas, produzindo a ânsia do consumo como busca de felicidade. Entre os milhões de miseráveis e de pobres, há os que, sabendo ter o acesso pelos meios legais virtualmente negado, vendo a condição de exploração e desrespeito a que é submetida a grande maioria dos seus iguais, não se conformam e optam pelo crime. A estes se destina o sistema carcerário, um sistema degradante, brutalizante, deformador do caráter humano. Por ali se pode estudar os intestinos desta sociedade, o desinteresse em resolver, em produzir soluções.
O retiro do convívio livre deve ter entre as finalidades a sensibilização, o esclarecimento, a recuperação da cidadania, a profissionalização, se for o caso, e o retorno ao convívio livre, no menor espaço de tempo necessário para a reabilitação. Estudos sociais, psicológicos, antropológicos, jurídicos e outros poderiam e deveriam ser feitos em benefício não só das ciências, mas principalmente dos presos, familiares, vítimas e outros envolvidos, além da própria estrutura social. Isso numa sociedade cujas prioridades estejam focalizadas no atendimento das necessidades básicas para uma vida com dignidade a toda a população. Numa sociedade democrática de verdade, o que, claramente, não é o nosso caso.
A sociedade brasileira não reintegra seus presos. Alija-os e empurra-os cada vez mais para o fundo do crime, da desumanidade e da barbárie. O sistema brutaliza e desumaniza funcionários, presos e familiares. Funciona ao contrário, o cara sai pior do que entrou, mais cruel, mais insensível, mais integrado ao crime organizado – enquanto os que organizam, mesmo, o crime convivem com o poder do Estado, têm suas empresas pra lavagem do dinheiro do tráfico e andam nas altas rodas da sociedade, contando com intermediários pra não sujar as mãos e não gerar provas. Às custas de milhares de vidas de adolescentes e jovens, sabotados em educação, cidadania e dignidade. Os que caem no sistema carcerário, entram no inferno. Além deles, há os que morrem e os que seqüelam. Muito poucos escapam. Milhares de vidas, poucos teriam optado pelo crime se o Estado cumprisse suas obrigações constitucionais e eles enxergassem outras opções pra se ter uma vida materialmente decente.
O sistema prisional brasileiro é de vingança, é nocivo pra todos os envolvidos, inclusive a p´ropria sociedade, como um todo. Está longe de ser um sistema de reabilitação social. A sociedade brasileira massacra e sabota a parcela pobre. E pra quem não se conformar, o sistema carcerário tá aí, mesmo. É uma ameaça clara, sem disfarce.



8. (Mente Consciente): Qual sua posição em relação a MIDIA, principalmente as programações da TV Aberta? São ferramentas alienatorias que distorce a realidade brasileira?

Eduardo: A mídia é o porta-voz ideológico do sistema capitalista, agora neoliberal, mas que já vai ser rebatizado com outro nome, que neoliberal tá cada vez mais sujo. Pela mídia privada se executa magistralmente a estratégia de infantilização, idiotização e alienação da massa popular, com o terreno preparado pela sabotagem da educação, que impede a criação defesas críticas. Pela mídia privada se desinforma as classes intermediárias, se deforma a opinião pública, se distorcem informações, se defendem os interesses da minoria dominante. É função da mídia privada formar valores falsos, produzir desejos de consumo, estimular a competitividade geral, jogando uns contra os outros, atacar e criminalizar qualquer movimento de real esclarecimento, conscientização, reivindicação, resistência ou defesa da maioria espoliada em seus direitos.
Acho criminoso que essas concessões não sejam discutidas publicamente, que o poder empresarial possua tamanho poder de pressão sobre o Estado, que não haja controle social sobre as comunicações do país.
É preciso pulverizar o espectro, e não estou falando de exterminar fantasmas. O espectro magnético é o espaço atmosférico por onde circulam as ondas de transmissão, ondas eletromagnéticas, das tvs e das rádios, e é área pública, jamais poderia ser predomínio empresarial, mas sim, de domínio público. Rádios e tvs locais, comunitárias, emissoras de todo o tipo, há espaço e a mídia privada “não deixa”. Esse poder, pra mim, é um mistério. Só posso imaginar e cabe certinho na estratégia do controle das comunicações, o imenso poder econômico e, por decorrência e sobretudo, político, administrativo, legislativo, jurídico. O controle das comunicações, da energia, dos transportes, do sistema financeiro faz do poder privado maior do que o próprio Estado. Por isso as dificuldades em conseguir com que o Estado cumpra a sua constituição e sirva à sua população. Não interessa aos seqüestradores. Eles se servem da população desassistida.



9. (Mente Consciente): Você acredita que vivemos num estado laico? Qual a sua opinião geral sobre religião e Deus?

Eduardo: Fui ver no dicionário. Laico vem de laikós, do grego, que significa ‘do povo’. Estado laico, então, é um objetivo a ser alcançado e ainda longínquo. No sentido de ‘alheio às religiões’, é falso, as religiões mais ricas têm um poder de pressão muito maior do que deveriam.
Religião vem da palavra religar, do latim religare. Como se fosse “religar” o ser humano ao seu criador. Considerando o universo como uma criação de Deus, existe alguma coisa que possa se “desligar” do criador, por conta própria e à sua revelia? É a velha pretensão humana. Não há o que religar, há o que perceber.
Eu não sei se há um “criador do universo”, na concepção que posso ter. Mas percebo haver um relacionamento constante entre o visível e o invisível, entre o palpável e o impalpável. Existem influências e trocas entre as dimensões, a dimensão que entendemos por material é apenas uma delas. Não tento definir, isso não é área da razão, mas da intuição. A razão humana não é capaz de alcançar o entendimento.
É tão ingênuo explicar as realidades incorpóreas quanto negá-las. As instituições religiosas se aproveitam do sentimento de além-matéria para se imporem e formar os seus rebanhos. Não se pode dizer que não existam, nestas instituições, pessoas e grupos dedicados ao serviço sincero à coletividade humana e aos mais prejudicados da sociedade, embora poucos e, proporcionalmente às necessidades, de efeito mínimo. Mas o objetivo que transparece é arrebanhar o número em busca de poder na sociedade. O pretexto hipócrita de salvar as almas esconde a estratégia para controlar os corpos e os comportamentos.


10. (Mente Consciente): Você é a favor da legalização das drogas? Ou apenas defende a descriminalização da mesma, no caso, a maconha?

Eduardo: Há milhares de anos o ser humano se utiliza de entorpecentes. Isso nunca foi problema. Passou a ser depois que foi idiotamente proibido. O que aconteceu nos Estados Unidos, quando os puritanos conseguiram proibir a bebida? A máfia italiana se instalou no país, traficando bebidas, e contaminou toda a estrutura da sociedade, gerando uma onda de violência jamais vista. Qualquer produto que tenha consumidores, ao ser proibido, cai nas mãos do crime, gera ganhos fabulosos e contamina a sociedade.
No Brasil essa proibição tem por volta de dois séculos. Não tinha muita força e ninguém ligou muito pra isso, na época. Imagino que alguns latifundiários, ao verem seus filhos em estado entorpecido por haverem fumado a ganja dos escravos, ofendidos pelo uso desse “fumo de negros e bugres”, pressionaram por essa proibição. Mas a coisa só pegou nos anos 50/60, com a explosão contra-cultural, seu poder de expressão e expansão. A proposta era uma nova sociedade, igualitária e livre dos padrões de comportamento, dos valores do consumo, do industrialismo, do produtivismo e das amarras morais hipócritas. A elite se sentiu ameaçada. Era preciso conter aquele movimento e a proibição das drogas veio a calhar. A perseguição foi implacável. As drogas eram o pretexto. O motivo real, manter o controle e as coisas como são.
Nunca ouvi falar em overdose de maconha. As mortes, milhares, estão nas atividades relacionadas ao tráfico e o tráfico tem origem na proibição. Seria uma proibição idiota e contraproducente, se tivesse como finalidade combater o consumo e seus malefícios. Mas suas intenções são outras, e pra isso a proibição é uma cartada de mestre. Lucros exorbitantes, consumo certo, nenhum direito trabalhista, nenhum imposto, nenhuma fiscalização nem controle de pureza e qualidade, substituição imediata e sem custos dos funcionários que saem (ou caem). O sonho empresarial. As despesas com propinas são um refresco, perto dos lucros. De quebra tem-se um ótimo pretexto pro incremento do aparato de guerra, para contenção das populações espoliadas, e para ameaçar (eventualmente intervir em) países que não se submetam aos interesses das grandes empresas transnacionais. É a “guerra ao narcoterrorismo”, variante do narcotráfico.
A Colômbia está cheia de bases militares estadunidenses, há vinte anos com o “Plano Colômbia” de combate ao narcotráfico. O fato de, neste período, a produção de cocaína ter aumentado mais do dobro no país, deixa claro que as intenções são outras. Com uma tecnologia capaz de localizar um cara dormindo numa barraca no meio das enormes árvores amazônicas (Raul Reyes, porta-voz das FARC, que estava em negociações internacionais para pacificar a guerrilha, entregando os reféns) e, com um avião, acertar um míssil no travesseiro dele, seria possível não localizar as plantações de coca?
Bem se vê que essa proibição é desonesta e absurda. Uma ofensa à inteligência e um crime de morte permanente contra essa molecada aí, há gerações abandonada à própria sorte por um Estado omisso.



11. (Mente Consciente): Qual sistema socioeconômico você acredita como o ideal para uma sociedade mais justa e igualitária? Socialismo, anarquismo, comunismo...

Eduardo: As definições européias não abrangem todas as possibilidades. Nenhum europeu poderia conceber o que acontece aqui, essa mistura de etnias, culturas, místicas, comidas, idiomas, costumes, comportamentos. O filho do estrangeiro que se mistura ao povo é brasileiro e abraçado como tal, o que não acontece em países do primeiro mundo. Além do mais, da Europa vieram a invasão, o genocídio, a escravidão, a exploração, a transformação da sociedade em produtiva e consumista, a vida pelo trabalho e não o trabalho pela vida. Não estou dizendo que não existam algumas dessas coisas em outros lugares, mas o que tem aqui veio de lá. Por quê deveríamos esperar que viesse de lá o modelo de revolução? É muita subalternidade cultural.
O sistema ideal é aquele em que o povo, educado, informado e consciente, decide soberano, diretamente, em assembléias, tudo o que lhe diz respeito. Tudo o que é coletivo deve ser objeto de debate e decisão coletiva. Por isso o trabalho de conscientização é imprescindível. Sem doutrinação, sem arrebanhamento. Não vamos confundir falta de consciência com falta de personalidade, nem falta de conhecimento com falta de inteligência. A maioria não admite doutrinação, e é um pé no saco, mesmo. Verdades prontas ficam aceitáveis nas igrejas, que se metem a explicar o inexplicável. Como eu já disse, o povo precisa de consciência, não de guias.


12. (Mente Consciente): Nos textos do seu blog: Observar e Obsorver você ataca muito a ELITE. O que é (e quem seria essa elite? Os ricos? E quais comportamentos dessa parcela da sociedade você repudia mais?

Eduardo: A elite a que me refiro são os mais ricos entre os ricos. Nada a ver com esses ricos que a gente vê, em seus carrões ostensivos, freqüentando restaurantes caros, nas ruas. São os que andam de helicóptero ou carro blindado com seguranças, são os que financiam campanhas, privam de intimidade com políticos de grande envergadura e influenciam políticas públicas em favor do lucro e contra a população.
Mas eu não ataco essa elite, apenas a denuncio. Perda de tempo atacá-la, ela está preparada pra isso, não está é pra insubordinação dos explorados. Pior que a opressão é a submissão. Prefiro esclarecer os de baixo, mais numerosos e acessíveis, pois são quem, sem saber, sustenta o Estado e a sociedade. Muitos se submetem por não verem outra opção. É preciso desenvolver consciência pra fazer a resistência. A elite, em si, não me interessa, com sua ostentação grosseira, seu egoísmo de classe, sua superficialidade, seu excesso e conseqüente desperdício, seus valores superficiais, sem alma, sua desumanidade travestida de superioridade. Dependem completamente dos pobres pra viver, não lavam, não consertam, não cozinham, não fazem faxina nem qualquer tipo de conserto. São fracos e disfarçam sua fraqueza com a quantidade de dinheiro de que dispõem e com refinamentos ridículos e artificiais. São dependentes e simulam força. Não são nada sem sua subalternidade, sem seus serviçais.


13. (Mente Consciente): O que você pensa sobre as cotas nas Universidades Brasileiras?

Eduardo: O que me parece é que está se criando uma classe média negra no Brasil, ainda subalterna à branca, pra sair bem na foto de um Brasil pluriétnico internacional.
Em 2007, 291 mil pessoas entraram nas universidade pelo sistema de cotas raciais. Três milhões e quinhentos mil estudantes terminaram o ensino médio neste mesmo ano. O que será que aconteceu com os três milhões, duzentos e nove mil que ficaram de fora? Isso é uma tática hipócrita.
Além do mais, não é justo. Meu filho nasceu e viveu em condições de pobreza – mas não de tristeza - , só estudou em escola pública e não teve direito a cota no ano dele. Tá certo que ele não tava fazendo questão, mas não é justo. Quantos brancos pobres existem? As cotas têm que ser sociais. Ce mostra que não pode pagar e pronto. A maior parte vai ser de negros, porque existem muito mais negros pobres, mas pelo menos vai ter acesso a qualquer pobre.


14. (Mente Consciente): Num mundo onde o amor é uma mentira para se conseguir sexo e a paz um pretexto para se fazer a guerra, o que seria viver?

Eduardo: O amor não pode ser uma mentira. Ou é amor ou não é. Para se conseguir sexo, é freqüente mentir e trair a confiança da pessoa desejada. Promessas de amor, ofertas de presentes, declarações de exclusividade, promessas de eternidade, tudo vira mentira. E mentira não vira verdade, nem com repetição massiva. Pode se fazer convencer, mas não deixa de ser mentira por ser acreditada. O tempo mostra isso.
Nesse contexto, viver é optar entre ser falso ou verdadeiro, ou como se equilibrar entre um e outro.
A coletividade é comparável a uma área de garimpo. Muito cascalho, muita pedra e lama, com pedras preciosas escondidas pelo meio. Se não se dispuser a se meter no entulho, não se encontram as pepitas, as exceções à regra. A diferença do mineral é que a preciosidade humana contamina. Muitos são os que têm o seu brilho apagado pelas vivências cotidianas, pelo massacre cultural, econômico, político e social. Basta uma leve aproximação e o brilho aparece. Mas é preciso trabalhar sem esperar por resultados. Eles podem ficar latentes por muito tempo, mas embrionários, esperando as condições propicias à eclosão. Além do mais, ao se depender de resultados, pode-se perder o ímpeto, a disposição e a esperança, e aí a vida deixa de ter sentido, a amargura toma conta e o vazio cresce na alma.



15. (Vanguarda do Rap Nacional): Como você enxerga o papel do Rap Nacional? Você acredita que isso seja um paliativo para o povo da favela?

Eduardo: Paliativo? O rap é uma forma de expressão artística nascida nas favelas e nas periferias. Esse é o seu grande diferencial, que aumenta em muito sua responsabilidade, por estar ligado à parte mais sacrificada da sociedade, a mais sabotada em todas as áreas, incluindo educação, informação e cultura. No início, que eu me lembre, eram só poesias de protesto, de denúncia, de convocação à rebelião, de esclarecimento, de incentivo, de relato das realidades vividas pela maioria mais pobre. A repressão veio em cima, direto, as classes abastadas começaram a temer a propagação do rap, assustadas. O rap tinha cheiro de revolta popular, o terror das classes abastadas. Mas os ataques tiveram outras frentes. Empresários perceberam o potencial de atração dessa arte, num certo mercado consumidor, e investiram nos artistas, interferindo na criação, cooptando, sugerindo ou impondo temas mais vendáveis. Não se pode condenar ninguém por querer sair da situação de penúria, mas esvaziar um conteúdo tão importante e necessário acaba esvaziando, também, o espírito. O preço é alto. A satisfação exterior jamais substitui a satisfação interior mas, na minha opinião, a satisfação interior substitui facilmente a exterior, com muita vantagem. Como em qualquer arte, há artistas que se dispõem a melhorar a própria situação, cultivando a fama e o comércio puro e simples de uma arte vazia, que trata de banalidades ou pior, incentiva os instintos primitivos, o sexo, o consumo, a violência, a disputa entre irmãos de situação. E há artistas íntegros, em menor número, que não admitem esvaziar a própria arte em troca de benefícios materiais e egocêntricos. “Esses são os imprescindíveis”.


16. (Vanguarda do Rap Nacional): É notória a sua admiração por grandes nomes como Bob Marley e Raul Seixas,que vieram a se tornar espelho/exemplo para uma grande parte do povo. Eduardo Marinho, já é exemplo pra muitos? Ou pretende ser?

Eduardo: Eu admiro de formas diferentes Raul Seixas, Milton Santos, Einstein, Gandhi, Madre Teresa, Betinho, Paulo Freire, Augusto Boal e tantos outros, conhecidos e desconhecidos que trouxeram luz a algum lado neste mundo tão às escuras, ainda. Essa é a maior função que pode exercer o ser humano, trazer luz à coletividade, de alguma forma. Não gosto da idéia de ídolos, acho que isso desumaniza um pouco. Se eu convivesse com qualquer um deles, dentro de casa, é certo que haveria concordâncias e discordâncias. Prefiro vê-los por esse lado, o humano comum que qualquer das exceções também é. Mas minha atenção é muito mais pelas obras que pelos autores. É a função dentro da coletividade humana.
Não gostaria de servir de exemplo, sou um emaranhado de características como qualquer ser humano. Todos temos falhas a cuidar, arestas a aparar, individualmente, não cabe idealizar pela forma que vivi ou que exponho. Minha vivência me dá uma responsa (e não uma superioridade), mas porque serve à reflexão sobre o tipo de sociedade em que nós vivemos, que nós constituímos. Sobre como somos levados a querer, a gostar, a admirar, a repelir, a condenar, a criar valores, de forma sutil e insidiosa, disfarçada no lazer, no entretenimento, no jornal, na televisão, no rádio, em toda parte, aboiando a gente que nem gado. A gente nem se dá conta e vive uma vida de merda, numa sociedade de merda.
É a forma de ver e sentir o mundo, o que tento questionar. O tipo, o modelo de sociedade tem que ser posto em questão, de todas as formas. Cada um com sua própria consciência. E todos se comunicando.


17. (Vanguarda do Rap Nacional): O que é ser nobre na pobreza desse mundo?

Eduardo: Nobre é uma palavra de conceito variado. Me lembra a antiga nobreza, os sentimentos de superioridade, de sangue nobre e essas coisas que precisavam de um bocado de servos que eles conseguiam subjugando-os, econômica ou militarmente. Nobreza de caráter, por exemplo, me soa melhor como pureza de caráter ou firmeza de caráter. Este é um pensamento que tem me vindo desde recentemente, ainda não “solidificou” – e é sempre bom lembrar, tudo o que solidifica pode se liquidificar, vaporizar, pulverizar,...
Nobreza, pra mim, sempre tinha sido o senso de justiça, com sentimento, benevolência e firmeza, com caráter forte e humanidade plena. Uma coisa de sentir, no olhar, na postura, na expressão, no tom de voz, no grau de compreensão. Mas não tá combinando com igualdade. E o sentimento de igualdade, de pertencimento igual, sem desigualdades que não sejam complementaridades, é fundamental. Quem sabe mais tem a obrigação moral de ensinar a quem quer saber. O mais forte apóia o mais fraco. Todos respeitando e defendendo os direitos de todos. Isso era nobreza pra mim. Agora tô repensando esse nome. Nobreza não tá combinando. Não gostei do que vi no dicionário. Sei que é uma palavra de uso corriqueiro, não pretendo criar regra ou significado pra ninguém, além de mim mesmo. Quando alguém usar a palavra nobre, eu sei o que tá querendo dizer e é isso o que eu considero. Meu pensamento eu guardo, até pra não ser chato. Só posso cobrar a aplicação do meu pensamento em mim mesmo.

18. (Mundo do rap): Como é o seu envolvimento com a política? Você ainda acredita nela? Ainda vota em alguém?

Eduardo: Meu trabalho é extremamente político. Trato da sociedade, da desigualdade e de temas ligados na maior parte dos meus desenhos, frases e textos, com abordagens individuais e coletivas.
Não considero a política partidária como política de verdade. Aquilo é um simulacro hipócrita de política. Ostenta-se a preocupação com o povo, mas serve-se às empresas, ao poder econômico, que se infiltrou até empestear toda a estrutura do Estado. Claro que passam algumas leis favorecendo a população, sempre de leve e de forma a não tocar na estrutura social, pois as retaliações são pesadas. Mesmo os ditos progressistas reconhecem seus limites e sabem o que não podem denunciar, para não perderem as posições conquistadas. Os interesses individuais prevalecem sobre os coletivos. A proximidade com o poder faz com que as propostas dos progressistas sejam dosadas e fiquem em segundo plano. É muito raro algum parlamentar se dispor a enfrentar as forças criminosas dos grupos de parasitas do Estado. Não há muitos Marcelos Freixos por aí.
Parei de votar em 89, quando Lula foi escanteado pelo esquema Collor. Vi três caminhões pararem em frente à seção eleitoral em que votei, em Sete Lagoas, abarrotados de camponeses, empregados de latifundiários locais, vindos de um churrasco em uma das fazendas, bêbados e analfabetos, faltando cinco minutos pro encerramento da votação. Cada um trazia uma cartolina do tamanho da cédula eleitoral, em branco, com uma seta apontando para cima e um quadradinho vazado. Era só colocar a cartolina em cima da cédula e fazer um x dentro do buraco, e estava dado o voto ao Collor. Decidi que, se o Lula não ganhasse, não votaria mais. De lá pra cá, votei uma única vez, em 2000, porque conheci uma diretora de escola que tinha o dom da política pura, não partidária, e ela estava se candidatando. Não tive nenhuma dificuldade em regularizar o título de eleitor, porque todos no cartório concordaram com minha argumentação. Não existe democracia com um povo sabotado em educação, em informação, em cidadania, totalmente inconsciente do que é, na verdade, uma eleição, sem noção de como funcionam as instituições, dos seus direitos subtraídos, de qualquer possibilidade de mudanças reais. Nem me cobraram as multas e ainda vendi material meu a um funcionário do cartório.



19. (Mundo do rap): Em um de seus textos do blog você disse que tem um filho; como você procura educar ele para esse mundo tão competitivo e desigual, quais os valores que você faz questão de enfatizar e passar para ele?

Eduardo: Eu tenho cinco filhos. Três do primeiro casamente, que eu pude criar, e dois de dois outros casamentos, que eu não pude, por conta das mães. Uma delas voltou pro Ceará e levou o menino com pouco mais de um ano. Até trocou o nome dele. A outra mora em Niterói, mas já me acusou de absurdos, como incesto, roubo, vícios, abriu processo por maus tratos a menor, interrompido por ela mesma depois que soube das provas que eu tinha, processou minha mãe sem aviso e arrancou dinheiro dela, apesar da mesada do pai e do seu próprio trabalho e continua me difamando por aí. Vejo isso como insegurança emocional e afetiva, não alimento rancor, sei que isso é fruto de um inferno interior, um conflito interno de grandes proporções que se espalha pras suas relações. Cada um só pode colher o que planta. Colher de outros plantios tem um alto preço.
Na educação dos meus filhos, procurei mostrar o mundo como ele é. Não sei se fui inteiramente bem sucedido, mas cada um tem sua personalidade própria e seus filtros. Faço meu trabalho com a tranqüilidade de quem não espera resultados, embora eles sejam inevitáveis. Isso me poupa de grandes expectativas e maiores frustrações. Não encaro filhos como papel em branco, onde a responsabilidade de escrever é toda minha e da mãe. Eles já vêm com personalidade própria, temperamento, índole e tendências. É preciso estar atento a essas particularidades individuais e levá-las em conta pra determinar a forma de educar cada um, pelas características pessoais de receptividade. Sempre estimulei a auto-suficiência, a iniciativa, a opinião própria. Sempre os coloquei em situações de decisão própria, de desenrolo com desconhecidos – um absurdo essa história de não falar com estranhos. A criança não desenvolve o discernimento e não distingue boa de má índole. Todos os desconhecidos são uma ameaça e a pessoa se fecha pro mundo, com medo. Quando confia, facilmente é enganada, pois não sabe perceber as índoles, e aí o medo se confirma e não se confia mais em ninguém, com evidentes prejuízos no desenvolvimento humano.
O mundo é competitivo por um condicionamento coletivo patrocinado pelos poucos que dominam as sociedades e a quem interessa a desintegração entre as pessoas, a desunião, o estado de competição generalizada, pois assim não nos damos as mãos e não percebemos o jogo de cena que nos leva a uma vida angustiante, como eu já disse antes, com vitórias no varejo e derrotas no atacado. E facilitamos a manipulação. Dividir para melhor controlar, essa é a tática.



20. (Mundo do rap): Se você tivesse o poder de criar uma única lei no Brasil, que lei seria esta e por quê?

Eduardo: Aquela mesma que já tá na Constituição. O Estado é obrigado a garantir vida digna a todo mundo, sem exceção, com alimentação, moradia, saúde de qualidade, educação de verdade, direito à informação fiel e todos os outros direitos básicos pra uma vida digna. Eu acrescentaria prioridade máxima para as situações de fragilidade, principalmente com a infância e a velhice. O Estado tinha que estar em cana, por conduta geral criminosa com sua população.

21. (Mundo do rap): Como você espera estar daqui a 15 anos, e como você acha que o Brasil vai estar daqui a 15 anos?

Eduardo: Não sei, mesmo, cara. Minha bola de cristal deu defeito. Rs
Daqui a 15 anos não sei nem se vou estar vivo. Se estiver, com certeza, estarei fazendo a mesma coisa que faço, talvez de alguma outra forma que a vida me apresentar e que eu abrace, talvez da mesma forma. É a única possibilidade, pois foi esse trabalho que deu valor, pra mim, à minha vida.



22. (Mundo do rap): Qual deveria ser a medida inicial de um Governo para diminuir a desigualdade social em um curto espaço de tempo?

Eduardo: Tirar os parasitas de cima do Estado. Os vampiros, os sanguessugas, os carrapatos, os piolhos, os chatos, as pulgas, o Estado tá que é uma nojeira, fraco, anêmico, impotente. No contexto de um Estado tão amarrado pelo poder econômico, é impossível. Tem muito trabalho pela frente. E a mídia é prioridade. É preciso a rapaziada tomar o acesso ao espectro magnético disponível, mas que é controlado pela mídia privada. É preciso que a população entenda o que acontece e como acontece. Porque se apenas parte significativa da população tomasse consciência, isso não aconteceria assim. Pela pulverização da mídia.

23. (Mundo do rap): Qual a mensagem que você tem a passar para aquele jovem que mora na favela, que está passando por dificuldades, que está desacreditado de um futuro melhor, que está sem esperanças em tudo, e que já está a um passo de começar a fazer coisas erradas e ilegais na busca de uma vida um pouco melhor?

Eduardo: Meu irmão, essa pergunta é muito difícil. Se eu tivesse um vizinho, ou um amigo, mesmo conhecido, que estivesse nessa situação e me pedisse um conselho (pois, em princípio, água e conselho só se dá a quem pede), acho que eu apelaria pra minha vivência. “Meu irmãozinho, se tu tá no limite, junta umas coisas de que tu precise e pé na estrada, que o Brasil é grande e variado. Leva um bocado de humildade, mantém a boa vontade, a sinceridade e, enquanto procura uma forma de sobreviver, vai trocando tua alimentação por serviço. Varre quintal, lava pratos, serve as mesas, lava carro, ajuda a carregar compras, freqüente os fins de feiras livres. Ande sem nada, que o mundo é sincero com você. Quem for ruim mostra os dentes e tu segue em frente. Quem te tratar bem, só pode ser gente boa, porque ninguém trata bem, por interesse, a quem não tem nada material que interesse. Mude de cidades, atravesse regiões, atento às oportunidades de servir e aprender tudo o que se apresentar. Vai aprendendo, vivendo e seguindo que, quando tu voltar, certamente vai trazer muita bagagem na idéia e no espírito pra oferecer aos camaradas que ficaram”. A vida no crime pode ser farta, mas é curta e infernal, ninguém pode discordar disso.

24. (Mundo do rap): Se você pudesse voltar no tempo, mudaria alguma coisa na sua vida, ou agiria da mesma forma que sempre agiu?

Eduardo: Quem é que não faz alguma merda na vida? No geral, na linha mestra, não mudaria, não. Mas eu deixaria de fazer uma merda aqui, outra ali.

25. (Mundo do rap): Vivendo do jeito que vive hoje, você se julga feliz? E o que é a felicidade para você?

Eduardo: Felicidade, pra mim, é um conceito abstrato e, ainda, inalcançável. Como perfeição, infinito, liberdade, eternidade. A gente alcança uma vaga noção e já pensa que sabe o que é. Eu poderia estar com tudo dando certo na minha vida, ganhando uma grana que me permitisse não me preocupar mais com as contas a pagar, meu trabalho rolando com tudo a favor, material farto e absorção pelo público, e eu não poderia me declara plenamente feliz. Como poderia, sabendo de tanto sofrimento, tanta injustiça, tanta criança em situações deprimentes, tanta velhice abandonada? Seria muito egoísmo meu, ficar indiferente à saga de populações inteiras entregues à própria sorte, numa sociedade que prioriza o lucro acima da vida humana – principalmente dos mais pobres? Como ser feliz, numa sociedade que cobra sangue e sofrimento pelos privilégios que oferece á menor parte da coletividade?
Mas é preciso deixar claro que não ser feliz não significa ser infeliz. Há infinitas graduações entre as extremidades. Posso ser bem-humorado, alto astral, alegre, mesmo não podendo ser feliz. A felicidade, no sentido pleno do termo e dentro da nossa realidade, significaria ingenuidade, alienação ou egoísmo. Não me interessa, por hora, ser feliz. Minha satisfação é trabalhar pela felicidade geral. Do mesmo jeito que vejo tudo se aperfeiçoando à minha volta, sem vislumbrar a perfeição em si. Não tenho nenhuma expectativa de ser feliz. Nem desejo, dentro da minha realidade coletiva.


26. Os blogs: Mundo do rap, Mente Consciente e Vanguarda do Rap Nacional agradece a você Eduardo Marinho pela entrevista, agora o espaço é todo seu, fique a vontade para falar o que quiser;
Eduardo: Já falei demais, não? Mas vamos lá.
Que cada um procure dentro de si os condicionamentos impostos, de forma inconsciente, sub-liminar ou explícita, pela sociedade, principalmente através dessa mídia safada. Somos bombardeados desde a infância, indefesos por falta de senso crítico, pelos profissionais altamente qualificados e regiamente pagos, para termos valores falsos, idéias fabricadas, desejos de consumos desnecessários, comportamentos padronizados. A coisa é tão bem feita que eles fabricam, também, as formas de “protesto” e “oposição”, criando um conflito falso e de cartas marcadas, pois são contraposições calculadas para serem inofensivas e não ameaçarem a estrutura da sociedade, além de satisfazerem a necessidade de contestação de muitos, ocupando o espaço dos movimentos que podem, realmente, mudar alguma coisa. Só a partir do trabalho interno adquirimos condição real de trabalhar com o mundo à nossa volta. Algo difícil de explicar, mas que se pode sentir claramente.
Pesquisar, aprender, refletir, decidir e praticar. Esse é o lema.

Abraços gerais e boas lutas.
Eduardo.

Visitem também o brilhante blog desse escritor, CLIQUE AQUI