5 de dez de 2009

Entrevista - Luciana Burlamaqui - Diretora de "Entre a Luz e a Sombra"

No mês de setembro tivemos o lançamento (em SP) do documentário "Entre a Luz e a Sombra". Documentário que acompanhou durante 7 anos a vida de uma atriz, um juiz, e também a trajetória do grupo 509-E.

"O documentário investiga a violência e a natureza humana a partir da história de uma atriz que dedica sua vida para humanizar o sistema carcerário, da dupla de rap 509-E formada por Dexter e Afro-X dentro do Carandiru e de um juiz que acredita em um meio de ressocialização mais digno para os encarcerados"
Documentário que gerou uma certa polêmica após uma declaração do do rapper Dexter ser divulgada, onde ele diz não apoia-lo devido a não ter assistido a obra finalizada, e ter tido apenas acesso a sinopse.

E diante disso, o Escrita Hip Hop junto a Vanguarda do Rap Nacional entramos em contato com os responsáveis pelo documentário e conseguimos uma entrevista inédita com a diretora Luciana Burlamaqui, acompanhem:

EHH-VdRN - Diga como foi fazer seu primeiro longa-metragem abordando um assunto tão abafado pela sociedade e pelos governantes?
Luciana : Foram nove anos mergulhada em um tema que sempre me incomodou. Esta rejeição generalizada aos condenados da justiça que cumprem pena no sistema prisional brasileiro: a maioria deles são pobres e negros. Fazer este filme foi um jeito de chegar mais perto da nossa sombra coletiva. Acredito que olhar para aquilo que nos incomoda é um jeito de começar a mudança.

EHH-VdRN - Lendo uma entrevista na revista “Caros Amigos”, o rapper, escritor e empresário Ferréz, fez o seguinte comentário: “O crime se fortalece aonde o estado não está presente...” Podemos considerar que o sistema carcerário está virando um escritório do crime organizado devido a ausência e falta de interesse do estado?
Luciana: Sim. O estado brasileiro precisa corrigir, sem punir com base na vingança. As prisões brasileiras são retratos de tortura. Quem irá lutar por essas pessoas? Dignidade e respeito a elas diminuiria a violência dentro e fora das cadeias. Essa ausência do estado só fortelece o crime organizado.

EHH-VdRN - A desativação do Carandiru em 2002, e a transferência dos detentos para o interior, na sua opinião, teve alguma melhora, ou apenas escondeu mais ainda o problema?
Luciana: Escondeu o problema. O Carandiru era um instrumento de força para que os presos se fizessem vistos. A implosão foi simbólica. O problema foi transferido, mas não houve melhoras: superlotação, ambientes insalubres, tudo continua igual. E o pior é que nós jornalistas não temos mais acesso ao interior dos presídios por decisão da Secretaria da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo, desde maio de 2006. Uma decisão tomada depois dos ataques a ônibus e bancos em São Paulo, supostamente pelo crime organizado paulista. Não sabemos o que está acontecendo lá dentro. Assisti a um vídeo da CPI do Sistema Carcerário revoltante. A CPI testemunhou presos comendo refeições dentro de sacos plásticos, ratos em celas, muitos detentos com Aids e tuberculose sem assistência medida e outros até dormindo na pocilga junto com porcos. Inadmissível.

EHH-VdRN - Lendo um texto de Luiz Guedes sobre o sistema carcerário (No site factum.com.br), ele comenta: “O Estado não deveria arcar com o ônus de custear o sistema carcerário e deveria transferir essas atividade para a iniciativa privada...” Segundo o próprio Luiz Guedes, isso geraria uma mão-de-obra mais barata, e riquezas a longo prazo. Você concorda com essa opinião?
Luciana: Teria que pesquisar mais sobre o tema para responder, mas a meu ver, o sistema carcerário deve ser gerido por pessoas que têm na sua vida a prática dos valores humanos, mais nobres, talvez a Pastoral Carcerária, por exemplo, não sei, o que não pode continuar é tratamento violento e humilhante contra os prisioneiros.

EHH-VdRN - Falamos muito de situações desumanas dentro do nosso sistema carcerário, porém, um preso que cumpre sua pena, raramente consegue uma vida profissional fora da detenção, o que muitas vezes ocasiona presos reincidentes. Você concorda que existe esse preconceito? Se sim, como mudar isso na sua opinião?
Luciana: Sim, existe e até é compreensível, quem empregaria um preso? Há medo. Porém pude acompanhar uma experiência bem interessante com o egresso num presídio em Lajeado no Rio Grande do Sul, onde o índice de reincidência caiu de cerca de 70% para 2%. Um advogado conseguiu trazer a comunidade para dentro do presídio de todas as formas, com aulas de alfabetização, de violão, reuniões de alcoólatras anônimos, agronomia e plantação de hortas, além de oficinas de trabalho para o que os presos tinham aptidão. Foram feitas também muitas parcerias com empresários para que os condenados saíssem de lá já empregados. Um deles que havia cometido dois assassinatos, por exemplo, montou sua própria fábrica de brinquedos - quando ganhou o semi-aberto- uma atividade que começou dentro do presídio. Ele recebia a madeira de uma empresa para montar suas peças e não reincidiu mais. Vive do seu trabalho. Outro saiu empregado numa companhia de eletricidade. E assim o índice de reincidência foi caindo neste presídio.

EHH-VdRN - Pelo que podemos ver Entre a Luz e a Sombra proporciona sempre um debate após a exibição. Qual a importância deste debate ?
Luciana: Maravilhoso. Todos da equipe nos sentimos recompensados por anos de trabalho quando percebemos que as pessoas se sentem tocadas pelo filme e com vontade de mudar o Brasil. Pode parecer um pouco utópico dizer isso, mas o retorno que tivemos até agora é esse: vontade de arregaçar as mangas e provocar mudanças construtivas em nosso país.

EHH-VdRN - Como surgiu a idéia de fazer um documentário sobre essa questão? Envolvendo de certa forma o Hip Hop e a questão da criminalidade?
Luciana: Foi tudo muito espontâneo. Um país desigual, uma repórter inquieta e uma junção de histórias muito fortes que aconteciam na minha frente e me faziam entender aos poucos a nossa desigualdade social e até onde chegamos com a violência que existe dentro de cada um de nós.

EHH-VdRN - Quais as maiores dificuldades para a criação desse filme? E para você, onde se consagra o encanto e desencanto humano?
Luciana: Tudo foi difícil, desde a parte financeira, até a construção do roteiro, eliminar momentos maravilhosos, ter cuidado em como contar a história equilibrando a realidade com a ética, nada foi fácil. Até hoje vivemos isso com o lançamento de um filme sem quase qualquer recurso financeiro. O encanto e o desencanto existe quando compreendemos que fazemos parte de uma sociedade por destino uníssona, mas que só será mais justa quando trabalharmos juntos em cooperação.

EHH-VdRN - As cidades que passarão o filme a principio é São Paulo, Santos e Belo Horizonte no dia 27/11 e no dia 04/12 no Rio de Janeiro, existe alguma previsão da exibição em outros estados?
Luciana: Queremos passar em Salvador, Fortaleza, Porto Alegre, Brasília entre outras capitais, mas tudo vai depender de como o filme caminhar nessas primeiras exibições.

EHH-VdRN - Como foi o processo de finalização do documentário, de unir todos estes anos de filmagem? Dexter e Afro-X participaram desse processo de finalização?
Luciana: O processo de finalização foi feito com meu editor Matias Lancetti, o produtor associado Daniel Rubio e muitos consultores. Os personagens são personagens, não produtores, por isso é praxe a não participação editorial, senão perde a idoneidade autoral. É um filme sobre eles a partir do meu olhar. Todo esse processo de edição durou dois anos e meio. O filme foi milimetricamente estudado sob todos os pontos de vista: técnico, conteúdo, editorial e ético.

EHH-VdRN - O 509-E fez um sucesso estrondoso no Rap Nacional, como foi para eles assistirem um documentário onde eles participam ativamente?
Luciana: O Afro está acompanhando todas as pré-estréias possíveis e agregando muito valor ao filme, já que é uma prova viva da possibilidade da reinserção social. Já cumpriu sua pena e não só abandonou a vida do crime, como escreveu um excelente livro: “EX-157”, onde conta sua trajetória no Carandiru. Hoje ele faz também trabalhos sociais e culturais com jovens da periferia. O Dexter, infelizmente, até o momento, não conseguiu assistir ao filme. Ainda está preso no interior de São Paulo. Há cerca de dois anos encaminho pedidos a Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo para levar o filme para ele na cadeia, mas até agora todos foram negados sob a alegação de que ele está em regime-fechado e por isso não haverá exceção por parte da SAP. Recentemente, conseguimos encaminhar um pedido direto a vara de execuções criminais da região onde está. Espero que a autorização seja concedida. Todos nós da equipe de produção do filme torcemos para que o Dexter possa compartilhar conosco o mais rápido possível do momento de lançamento e divulgação deste trabalho e da mensagem de caminhos de paz e não-violência para o Brasil que o doc traz a partir da história de todas essas pessoas: Dexter, Afro, Sophia e o juiz Dr. Octávio de Barros Filho.

EHH-VdRN - Espaço totalmente aberto. Fique a vontade!
Luciana: Obrigada pelo espaço. Ao longo de todos esses anos percebi que a violência só gera mais violência e que ela não está simplesmente no outro, mas dentro de cada um de nós, e todos os dias somos testados sobre isso. O que cabe a nós, me parece ser, a escolha por qual caminho seguir.

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Aí está, a Vanguarda e o Escrita Hip Hop tentando trazer os lados da moeda.