25 de jun de 2011

Tempos dificeis - Aline Lopes

Quando falamos em holocausto umas das primeiras coisas que vêm à nossa mente são: judeus e Hitler no cenário da 2ª Guerra Mundial. E é consenso de todos que foi um dos episódios mais cruéis e tristes da história da humanidade.
Mas você deve estar se perguntando que relação isso tem com a sua vida, e eu responderei definindo dois termos, holocausto e gueto. O primeiro diz respeito a vidas humanas que são exterminadas de forma maciça e deliberada, no Brasil milhares de pessoas morrem todos os anos por conta do fato de suas necessidades básicas e determinadas constitucionalmente não serem atendidas. O segundo termo define o lugar localizado na parte periférica das grandes cidades, onde originalmente os judeus passaram a viver por inúmeras questões econômicas e sociais provenientes do período que engloba a 2ª Grande Guerra, é fato mais do que notório que a palavra se refere a grupos de minorias tratados de forma discriminada e que sofre pressões tanto de cunho social, como de cunho econômico.
É exatamente aqui onde o RAP entra em cena sendo a voz dos que são coagidos a ficar em silêncio. Tendo sido criado essencialmente para canalizar a energia advinda da desigualdade cotidiana, ele desempenha um papel que exige maior responsabilidade humana, social e ideológica.
Eu tento encontrar o momento da história onde esse espírito protestante começou a se perder. Pois quando paro pra pensar o “Holocausto Urbano” cantado pelos Racionais existe ainda hoje. Há alguns anos o rap tem acompanhado o grande boom do desenvolvimento da tecnologia, a informação começou a chegar de forma mais rápida e em maior quantidade, logo o rap passou a freqüentar lugares que só visitava em ocasiões raras: o centro. Aqui aparece uma coisa que me preocupa muito, que é justamente uma idéia (ainda que subconsciente) de adaptação necessária para que o lugar “conquistado” pelo rap pudesse ser mantido (antes de continuar que fique claro que não pretendo deslegitimar o espaço que o rap conseguiu e muito menos o talento ou caráter das pessoas envolvidas no processo) e em conseqüência vemos mensagens de pouca relevância (por vezes de nenhuma) para o crescimento ideológico, humanitário, social ou qualquer crescimento que seja e que passaram a tomar o lugar da consciência suburbana que estava sendo construída. Espero que seja obvio que também não considero cantar “coisas mais leves” como algo errado.
Várias matérias têm aparecido onde o título e o assunto se resumem na frase “o rap está virando POP”, mas antes de defendermos é preciso pensar no significado que o termo pop carrega, e não me venham dizer que é pop de popular, pois isso o rap sempre foi, minha preocupação é com o sentido “oculto” que sempre me faz pensar nesse pop como tendência. E eu te pergunto quem é a maior construtora das tendências que vemos hoje em dia?
Esta na hora de acordar meu povo, o jogo não é tão simples quanto parece, não é simplesmente aparecer na TV, ter um nome famoso, tocar em festivais ou colocar teoricamente o nome do rap em um patamar mais alto. Não sou contra o rap ambicionar vôos mais altos estou me referindo única e exclusivamente à forma como isso tem sido feito e o olho do furacão é justamente o preço a ser pago por isso.
Deixo então uma última analogia para os produtores/transmissores/ouvintes/leitores que julgam tudo que foi escrito acima como bobagem:
Nos campos de concentração as pessoas que tinham algum “dom” especial, que antes atendia a demanda do grupo em que se estava inserido passaram a servir diretamente os interesses do sistema vigente e tinham o privilégio, se é que assim isso pode ser chamado, de morrer mais tarde. Imagine-se leitor numa fila a caminho da morte e que para sua sobrevivência, ou melhor, para somente adiar sua morte, todas as vezes que chegasse sua hora, um vizinho, um irmão, um amigo fosse colocado para morrer no seu lugar por conta dessa falsa idéia de privilégio.
Enquanto o rap se preocupa em fazer do nosso sistema seu senhor para prolongar sua vida a qualquer custo, crianças perdem os sonhos, mães perdem filhos, nós perdemos irmãos e nos perdemos. A guerra agora é silenciosa e mais astuta do que nunca, por isso eu imploro: escolham muito bem suas armas.